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"É uma tradição": António dedica há mais de sete décadas a vida à cestaria

Aprendeu o ofício com o pai ainda em criança e continua, mais de sete décadas depois, a trabalhar a verga à mão e a manter viva uma arte cujo futuro já não dá como garantido.


Fotografia: Miguel Gabriel
Fotografia: Miguel Gabriel

Tem 84 anos feitos, mãos habituadas a dobrar a verga e uma vida ligada a um ofício que não se aprende de um dia para o outro. António Ricardo Inácio é cesteiro e a sua relação com a Feira de São Bernardo começou muito antes de ter uma banca própria: ainda criança, por volta dos oito anos, acompanhava o pai, de quem acabaria por aprender a arte. Décadas depois, continua a regressar a Alcobaça e a trabalhar diante de quem passa, transformando a matéria-prima em cestos peça a peça.

A presença regular enquanto artesão na Feira soma já mais de duas décadas. António recorda também os tempos em que o certame decorria noutro espaço, tendo começado a participar na zona do MercoAlcobaça antes da mudança para o atual recinto. Desde então, garante, tem regressado todos os anos.

Na banca há cestos de diferentes dimensões e peças destinadas a várias utilizações, desde a lenha a outras tarefas do quotidiano. E António faz questão de corrigir uma ideia comum: aquilo que trabalha nos cestos não é junco. "Isto é verga", explica. O junco, esclarece, é utilizado noutro tipo de peças.

Antes de chegar às mãos do cesteiro, há todo um trabalho que começa ainda na recolha da matéria-prima. Depois, a verga precisa de passar pela água para ganhar as condições necessárias para ser moldada. Dependendo da grossura, pode permanecer de molho durante vários dias: António fala em cerca de 10 a 12 dias, podendo chegar perto dos 40 dias quando é mais grossa. Só depois começa verdadeiramente a construção da peça.

Na Feira, António procura também mostrar o trabalho ao vivo, embora diga que o espaço disponível não oferece as mesmas condições que tem em casa. Uma peça pequena que consegue terminar em cerca de três horas no seu espaço de trabalho pode demorar quase quatro no recinto.

E engana-se quem pensa que basta entrelaçar algumas varas. Quando lhe perguntamos se qualquer pessoa conseguiria aprender rapidamente, a resposta é imediata: "Não se aprende num ano." Para António, o verdadeiro conhecimento está em saber preparar o material e perceber onde colocar cada ponta, para a direita ou para a esquerda, até a peça ganhar forma.

Foi o pai quem lhe transmitiu esse conhecimento. Os filhos também sabem fazê-lo, mas a continuidade para a geração seguinte é mais incerta. António chegou a ensinar um dos netos, mas o jovem escolheu outro caminho: "Quer eletrónica de automóvel e é bem melhor que isto", conta, entre o humor e a consciência de que os tempos mudaram.

A dificuldade em manter vivo o ofício não está apenas na falta de quem queira aprendê-lo. António aponta também para o poder de compra e para a dificuldade de fazer refletir no preço todas as horas de trabalho envolvidas. "É uma tradição, mas as pessoas não têm poder de compra", lamenta. E, perante o valor de algumas peças, deixa outra frase que resume bem a realidade de quem continua a fazê-las à mão: "Nem paga qual é o trabalho que fazemos." 

Aos 84 anos, António continua, assim, atrás da banca e com as mãos na verga. Sem grandes previsões para os dias que faltam até ao fim da Feira — "objetivos adiantados nunca" — mantém-se fiel a uma arte aprendida com o pai e que, enquanto houver mãos para a trabalhar, continua a encontrar espaço em São Bernardo.

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