"Estamos em Alcobaça e ninguém sabe quem foi São Bernardo"
- Miguel Gabriel

- 26 de jan.
- 3 min de leitura
No seu novo livro infantil, Vanda Furtado Marques procura dar rosto a São Bernardo de Claraval e aproximar as crianças da história e do património de Alcobaça.

"Falava em São Bernardo de Claraval e raramente os alunos sabiam quem era este monge." A constatação repetiu-se ao longo dos anos e acabou por se tornar impossível de ignorar. Sempre que o nome surgia em contexto escolar, a associação era quase imediata: a Feira de São Bernardo. "Desconheciam completamente a ligação de São Bernardo à fundação do Mosteiro. Alguns pensavam até que ele tinha vivido em Alcobaça." Faltava a história, faltava o contexto, faltava o rosto por detrás do nome.
Foi dessa ausência que nasceu "São Bernardo de Claraval – o coração de Alcobaça", um livro infantil que procura dar rosto a uma das figuras mais determinantes da identidade histórica e espiritual do território alcobacense. Professora de História e autora de literatura infantil, Vanda Furtado Marques sentiu que algo essencial se estava a perder entre gerações. "Estamos em Alcobaça e ninguém sabe quem foi São Bernardo”, resume.
A escolha do público infantil não foi casual. "A mudança começa nos mais pequenos. São eles que depois contam aos pais", explica. Para a autora, é na infância que se criam ligações duradouras à História e ao património, sobretudo numa altura em que o ruído e a dispersão parecem ocupar todos os espaços. "As crianças hoje têm muita dificuldade em estar em silêncio, em parar, em escutar."
Ao longo do processo de escrita e pesquisa, a relação da autora com a figura de São Bernardo de Claraval foi-se transformando. "No início, não era uma figura por quem sentisse particular empatia", admite. O estudo revelou-lhe, porém, um homem muito para lá da imagem do místico austero. "Foi alguém que abdicou de uma vida de luxo, pregou a simplicidade, a paz, a humildade e trouxe algo muito bonito à religião: o feminino."
São Bernardo foi o grande impulsionador do culto mariano, humanizando a figura de Maria. "Ele via Maria como uma mãe, como um farol, não como alguém distante num pedestal." Essa visão ajuda a compreender porque todos os mosteiros cistercienses são dedicados a Santa Maria e a razão pela qual o Mosteiro de Alcobaça conserva, ainda hoje, de forma tão clara, esse espírito de simplicidade e contemplação.
No livro, a narrativa começa em França, passa pela juventude, pela entrada na Ordem de Cister, pela fundação de Claraval e pela ligação aos Templários, até chegar a Portugal. É aqui que a história ganha especial significado local, ao explicar a relação entre São Bernardo e D. Afonso Henriques, e o papel determinante do monge francês na afirmação do novo reino e na fundação do Mosteiro de Alcobaça.
"É importante que as crianças percebam que não somos ilhas", sublinha a autora. "Há uma ligação profunda entre França e Portugal. São Bernardo não era português, mas foi essencial para a nossa independência.” Uma forma clara de mostrar que a História se constrói em diálogo, cruzando territórios e culturas.
A narrativa não evita as contradições do passado. São Bernardo, que proclamou a Segunda Cruzada, surge também como um homem atravessado por dúvidas e tensões. "O que me interessa passar às crianças é o lado humano", explica. "Mesmo santos, reis ou rainhas tiveram angústias e momentos difíceis." Essa abordagem permite aos mais novos compreender que a História não é feita de figuras perfeitas, mas de pessoas reais, com escolhas complexas.
Essa pedagogia encontra eco no próprio espaço do mosteiro. A nave central surge como uma lição silenciosa: "Não há luzes, nem ornamentos a distrair. É a luz branca, a luz pura." Um espaço que traduz, em arquitetura, aquilo que São Bernardo defendia. Por isso, um dos objetivos associados ao livro passa por levar as crianças ao mosteiro não apenas para visitar, mas para sentir. “Perceber o valor do silêncio, da contemplação, da simplicidade.”
O projeto editorial de Vanda Furtado Marques foi concretizado através de uma campanha de crowdfunding, um processo exigente que acabou por confirmar uma suspeita inicial. "Muitas pessoas diziam-me que não sabiam quem era São Bernardo." O feedback revelou que, embora pensado para crianças, o livro desperta também a curiosidade dos adultos.
Mais do que um livro infantil, "São Bernardo de Claraval – o coração de Alcobaça" assume-se como um convite à escuta e à redescoberta. Num tempo marcado pela pressa e pelo excesso, recuperar uma figura do século XII é, para a autora, uma forma de regressar às raízes e de lembrar que há valores que não perdem atualidade.



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