Abril: da Conquista à Atenção, pela Cultura
- Inês Silva

- há 2 dias
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Abril é, por norma, um mês de contrastes. No dizer popular, é chuvoso, embora a primavera traga luz e brisa morna. Por isso, se não saímos sem a gabardina, também caminhamos com o espírito pronto a celebrar a liberdade que, há 52 anos, tem dado pompa aos festejos.
A liberdade foi a maior conquista do Portugal contemporâneo. Nós, e as gerações que nos sucedem, somos herdeiros diretos desse oxigénio. Recebemos, sem esforço de sangue próprio, o acesso à educação, o direito ao voto e a possibilidade de ler livros e de ouvir canções outrora proibidos. Acima de tudo, herdámos a cultura como âncora, que nos deu uma visão mais rica e crítica, capaz de olhar para os antigos bustos e neles identificar, tantas vezes, machismo, ganância e arrogância. O acesso à cultura deu-nos a capacidade de "despentear" a História e de trazer ao palco os anónimos, aqueles cuja condição social nunca lhes teria permitido ganhar relevo.
Depois de 74, Portugal tornou-se mais educado e qualificado, com cidadãos culturalmente mais densos. No entanto, não há tempo sem contrariedades. Se já ultrapassámos o meio século de democracia, por que razão são hoje tão visíveis ataques às suas fundações?
A fragilidade económica dos media, o risco de perda de independência jornalística e a violência contra quem informa são sinais de alerta. Apesar das suas imperfeições, a imprensa continua a ser um espaço fundamental para o pensamento livre. É muitas vezes nela que se identificam a radicalização política e os sinais de degradação democrática.
A corrupção e a falta de ética no exercício de cargos públicos (segundo a Estratégia Nacionais Anticorrupção) são novas formas de silenciar. O descrédito institucional afasta o cidadão da participação cívica, e uma democracia sem cidadãos ativos é um corpo inerte, para não dizer morto.
Estes dois exemplos demonstram o seguinte: já não basta o caminho da intenção; é preciso o caminho da atenção. Intenções temos muitas: discursos inflamados e promessas de transparência. Mas é a atenção que nos salva: a vigilância ao pormenor, ao que se corrói sem ruído, ao que se normaliza sem questionamento, ao que se esvazia sob o manto da cegueira.
Se a chuva de Abril nos refresca o espírito, que as celebrações não nos entorpeçam o corpo. As qualificações e o acesso a uma vasta cultura foram um grande investimento no nosso pensamento crítico. Honrar Abril em 2026 não é apenas repetir rituais; é exercer essa capacidade de estar atento. Porque a liberdade, uma vez conquistada pela intenção de um povo, só se mantém pela atenção que lhe vamos dando.



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