A queda no lago

Em cima da mesa estão dois cafés. E dois pratos. Um tem um pastel de nata. Inteiro. O outro tem o que resta de outro pastel de nata. Estão apenas restos de massa folhada. O sol está a bater na esplanada. As mesas estão quase todas ocupadas e nesta, em particular, estão duas senhoras. Duas amigas, parece-me.

- Como foi o teu Natal? – pergunta uma delas, de óculos escuros.

- Foi muito bom. Com os meus pais, os meus irmãos e cunhados. E o teu? – responde a amiga, antes mesmo de levantar a chávena de café.

- Foi muito bom também. Passou-se. Mais um, felizmente.

A conversa sobre o natal de cada uma delas é rápida. Naqueles vinte minutos em que estão sentadas na mesa ao lado da minha, naquela esplanada, falam também sobre os filhos, as compras que querem fazer nos saldos e sobre os planos para a festa de ano novo.

As conversas daquelas amigas e dos restantes grupos sentados nas várias mesas na esplanada são acompanhadas pelos gritos alegres de três pequenos rapazes. Correm, correm, correm. Sem parar. Brincam à volta do lago. Estão aos saltos, de pedra em pedra, as pedras brancas que formam a passadeira, entre a água, no jardim dos Paços do Concelho, ao lado do Terreiro, a cafetaria que abriu recentemente. O jardim, onde decidi estar por uns instantes, ali pela primeira vez (confesso) antes de ir à farmácia. Estou sentada num dos bancos.

Ali, ao olhar para eles, lembro-me da minha infância. Sobre aquelas pedras, saltei e passei de mão dada com a minha mãe, milhares de vezes, e sozinha, já mais velha. Foi assim durante anos. Quase sempre com a mesma rotina.

Sair do Jardim-Escola, percorrer o passeio da calçada portuguesa. Ler as vogais e os ditongos escritos no chão. Parar na passadeira. Olhar para a esquerda e para a direita, ou seja, olhar para um lado e para o outro. Esperar pela melhor altura para atravessar e avançar. Chegar ao outro lado da rua e correr. Correr como correm aqueles três pequenos rapazes, agora ali, à minha frente.

Lembro-me de um episódio. De um dia, em que estava especialmente elétrica. Feliz com qualquer coisa. Lembro-me de usar um vestido escuro. Azul escuro, talvez. De usar umas collants vermelhas e uns sapatos castanhos.

- Ana, cuidado! Concentra-te, por favor! Passa devagar!

A mãe avisou-me duas. Três vezes. À quarta, já foi tarde demais.

O que aconteceu a seguir? Pumba! Pus literalmente o pé na poça. Um não. Os dois.

Caí para dentro do lago, na passagem entre a terceira e a quarta pedra. Aquelas pedras compridas, largas. Do tipo passadeira. Antes mesmo de chegar ao quadrado central do lago.

E lá fiquei uns largos minutos. Demorei a processar o cenário em que estava (literalmente) metida: água até aos joelhos, de vestido molhado até à cintura, com a boneca que levava na mão a boiar, virada para baixo, naquele lago felizmente, transparente. Parece que tinha sido limpo há pouco tempo.

Primeiro chorei. De vergonha. Parece que todas as senhoras de Alcobaça, conhecidas da minha mãe, tinham combinado todas ali passar (precisamente) naquela altura. Que azar! Depois, começo a rir-me. Descontroladamente. Um descontrolo tal… que me tirava as forças necessárias para sair de lá de dentro. Lembro-me de me tentar acalmar, respirando fundo, e só depois empoleirar-me para sair do lago.

Estava sol, como hoje. Era outono. Não estava muito frio. Mas a roupa molhada estava a fazer mossa.

Dali, fui a correr até ao centro comercial, de braço dado com a minha mãe. O objetivo era aquecer-me na loja da madrinha João. Lá, descalcei-me e tirei as meias. De toalha a tapar as pernas, já estava a ficar mais sisuda, com um ar mais sério. Tinha frio e sentia-me desconfortável. Instantes depois, chega a D. Manuela, a vizinha da loja do lado. Entra com uma caixa de meias na mão. Dava para perceber, pelo desenho, que eram escuras. Ofereceu-mas, porque, apesar da traquinice que tinha cometido, eu “merecia um mimo”.

A madrinha tentou secar os meus sapatos com um secador que tinha na loja. Não ficaram totalmente secos, mas a operação permitiu que, com muito menos água, os pudesse voltar a calçar para, pelo menos, fazer o caminho a pé até ao stand dos meus pais, e, assim, tentar evitar uma gripe. E lá fui.

De repente, um dos meninos cai. Uns senhores que estavam perto, em pé, vão em seu auxílio. Por pouco que não cai no lago. Tal como eu caí. Uma aventura… que dei por mim a recordar naqueles instantes. Foi essa queda, a do pequeno Pedro, que me despertou e me fez voltar aos tempos de hoje. Ou melhor, aos tempos de ontem. Dia 29 de dezembro de 2018, à tarde. Dia em que pela primeira vez, em muitos anos, voltei a sentar-me num dos bancos de pedra daquele jardim. E que bom que foi.

2018 está a acabar. 2019 está quase aí. E que seja um ano bom e feliz para todos.

Até ‘pro ano!

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