A liberdade de escolha

Entro na loja apenas com uma certeza: comprar um livro para oferecer a uma amiga.

A livraria é grande. Cheia de prateleiras. De cima abaixo. Há mais livros em cima das mesas quadradas que ocupam os corredores daquele espaço comercial localizado no centro de Lisboa.

Os livros em exposição estão divididos por temas. Comecei por olhar para a secção de auto-ajuda: são importantes, mas não... não é por aqui. De seguida, surgem os livros relacionados com a religião. Tema interessante: mas também não. Mais à frente, surgem os manuais de história, os de geografia, economia, sociologia, psicologia, marketing... enfim: todas as ciências sociais e económicas ali... à minha frente. “Também não” – penso eu.

De repente, dou por mim sentada num sofá preto, bem fundo, de frente para as estantes. Sinto-me insatisfeita. Mais: tenho a certeza de que a certeza (inicial) de escolher um livro é, afinal (ainda), uma dúvida.

“Epah, isto é tramado” – digo entredentes. “E agora?”.

Agora, penso nela, na minha amiga. Penso nos gostos, nos interesses, na escolha que ela faria caso estivesse, ali, sentada, em vez de mim, a olhar para as estantes.

“Conheço-a tão bem... isto não tem de ser difícil, Ana!” - digo entredentes. É um facto: falo muito comigo.

Penso alguns segundos. “Já sei!” – volto a dizer. Cheia de convicção, levanto-me e peço ajuda: “Livros sobre Alcobaça, o que tem?”.

“Muita coisa”, responde-me a funcionária da loja.

Respondo-lhe com um grande sorriso, enquanto a senhora faz a pesquisa no computador.

“Está preparada para escolher?” – pergunta-me.

“Escolher? Mas eu não tinha já escolhido... ao pedir livros sobre Alcobaça? Pois. Pois, não. Isto ainda não acabou. Escolhes-te o tema. Falta o resto.” – pensei.

“Sente-se no sofá, de novo, que eu trago já o que tenho”.

“Isto da liberdade de escolha... não é coisa fácil” – comento em voz alta quando me sento.

“Mas ainda bem que a temos” – responde-me um senhor que está sentado no sofá ao lado a ler um livro.

Não chego a ter tempo para pensar naquela resposta. A simpática funcionária aproxima-se, de seguida, e a minha atenção foca-se no conjunto de livros que traz na mão: uns de culinária e doçaria conventual, outros sobre a história da região, outros sobre o mosteiro, outros sobre o comércio, faiança, costumes e tradições. Abri, desfolhei, li as capas e as contracapas. Várias vezes. Acabei por escolher um romance ficcionado sobre o amor de Pedro e Inês.

Peço para embrulhar e pago o livro. Saio da loja feliz. Pela escolha que fiz e pela minha liberdade. A minha e a de todos.

Há mais. Muitas mais liberdades. Muitas outras... sobre as quais podemos e devemos refletir e, acima de tudo, viver e desfrutar. Esta é a minha proposta.

Bom feriado. Até à próxima história.

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