A estreia

- Valente, vens a Alcobaça nas tuas folgas?

- Sim!

- Queres ir ao cinema na segunda à noite?

- Sim. Boa! Onde? Vamos a Leiria?

- Não, tonta! Aqui em Alcobaça. No cine-teatro.

E assim, de repente, “abri a pestana”. E fiquei zangada comigo própria.

Claro que eu sei que há sessões de cinema em Alcobaça…

Estou sempre em “cima” das novidades da agenda do João D’Oliva Monteiro, porque, confesso, por razões profissionais, recebo com regularidade, a newsletter da Câmara Municipal. E mais: as redes sociais dão uma ajuda, nessa promoção.

Claro que eu sei que há sessões de cinema em Alcobaça… repito, mas há uns meses, naqueles instantes de uma conversa ao telefone com uma prima, parece que esqueci. Na verdade, esqueci mesmo.

Será que é uma forma inconsciente de desvalorizar o que é nosso?

Sim, claro que é uma forma inconsciente de desvalorizar o que é nosso, mesmo que isso, depois de tomarmos consciência do erro, nos irrite profundamente. E foi o que me aconteceu. Admito.

Mesmo que gostemos muito da nossa terra (e é o caso, como já devem ter percebido) e gostemos muito das nossas coisas, sejam elas quais forem, acredito que isto, de as desvalorizar, assim, de forma, inconsciente, nos aconteça a todos, em tantas outras circunstâncias do dia-a-dia.

Mas não há desculpas. E naquela segunda feira, fui mesmo ao cine-teatro ver o filme que estava em cartaz. Não só fui com a prima, como levei a minha mãe. Foi tão bom.

Foi tão bom que ajudou a recordar uma fase extraordinária.

1998. Fevereiro ou março, já não sei precisar. Várias sessões durante vários dias. Bilhetes reservados com dias de antecedência. Sala sempre cheia. Conto rápido.

Quarta feira. Quatro da tarde. A compra dos ingressos está por minha conta. Saio da Frei Estevão Martins e desço até ao centro comercial. Passo pela loja da madrinha João e percebo que a tarefa se avizinha árdua. Dali, vejo as filas para a bilheteira. Já estão a dar a volta ao edifício.

Não perco mais tempo. Despeço-me e sigo para o stand dos meus pais. Chego lá num instante. Tenho a mãe, à porta, à minha espera. Troco a mochila pelo dinheiro (notas em escudos, imaginem…) e uns beijinhos, claro. Duas ruas abaixo, meto-me na fila. Depois de quase uma hora consigo os três bilhetes.

O entusiasmo é tanto que nem dou pela chegada, rápida, do domingo seguinte.

Sessão das três da tarde. Às duas e meia já estamos sentados na terceira fila, nos primeiros lugares do lado esquerdo. Eu, o meu pai e a minha mãe. A sala enche e todos, ali à volta, nos conhecemos.

Foram três horas e quinze minutos de filme, com um intervalo de outros quinze. No total, três horas e meia ali, para ver, o Titanic. O grande filme de James Cameron, com Kate Winslet e Leonardo DiCaprio. Um dos maiores lançamentos de sempre no mundo e em Portugal, que foi também um enorme sucesso em Alcobaça. Decerto que também lá estiveram ou recordam relatos, contados por outros, sobre estes dias no cine-teatro.

No mesmo cine-teatro que hoje, mais de vinte anos depois, continua a ser palco de outras grandes estreias, de grandes espetáculos, de galas e festas. Um palco de cultura, de encontros e reencontros.

Encontros e reencontros. Foram tantos os que vivi ali, naquele espaço. Mais histórias do cine-teatro que ficam para outras crónicas.

Até breve!

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