Turista vê, gosta, mas não compra

O turismo é, sem sombras de dúvida, a principal fonte de receita para a economia. Num país que vive do sector terciário, dentro dos serviços, é a rubrica do turismo que mais se destaca. Nos últimos anos, o turismo cresceu e com ele aumentaram as receitas. Os municípios encontraram uma oportunidade para aumentar receitas, mas nem todos acompanharam a tendência.

O caso de Alcobaça é flagrante de um concelho que não aproveitou as condições intrínsecas para usar o turismo como fonte de rendimento. O primeiro ponto que deve servir como base para reflexão é: o turismo deve ser dinamizado para o bem da economia local e não das autarquias. Os responsáveis municipais terão que saber vender as potencialidades de forma que comerciantes e habitantes locais ganhem com o turismo. Mas o que tem ganhado a cidade do amor com o turismo? Muito pouco ou, se preferirem, nada se tivermos em atenção as potencialidades que tem. Esta ideia não é pessoal, há números que suportam esta teoria, mas já lá vamos.

Um património da humanidade, uma capital dos doces conventuais e diversas praias. Estes são apenas algumas das potencialidades do concelho que poderiam ser rentabilizados de outra forma. Várias vezes assisti a autocarros carregados de turistas que são despejados junto ao mercado municipal, vão ao Mosteiro, vêem, saem e voltam a embarcar numa excursão para outros ares. O que fica? Uma entrada paga no património da humanidade e o desgaste feito numa cidade em que pouco deixam para a economia local. No fundo o turista vê, parece gostar, mas não compra.

Os números do Pordata mostram isso mesmo, são poucos os que por cá compram. Uma pequena análise permite perceber que Alcobaça tem capacidade, mas o rendimento obtido é muito baixo. Para uma melhor análise decidi comparar os números com o município vizinho da Nazaré. Por muito que o povo diga, com ironia, que a única coisa boa que a Nazaré tem é a placa que diz Alcobaça, a verdade é que os números do turismo são muito melhores do lado lá.

Os dados mais recentes, de 2017, mostram que o concelho de Alcobaça tem 1 140 camas, o que significa que mais que duplicou a oferta que tinha em 2009, 534. Já a Nazaré apresenta 1 294 camas, um crescimento de 40% face às 764 que tinha em 2009. A diferença na oferta de pernoita é mínima, mas a de receita dispara e a Nazaré descola de Alcobaça. No concelho onde ninguém passa sem lá voltar o rendimento total das unidades hoteleiras, em 2017, foi de 5 milhões de euros, na Nazaré foi praticamente o dobro com 9, 2 milhões de euros.

Mais grave ainda, estes números escondem a oferta de certos alojamentos locais como o que é arrendado pelas típicas nazarenas. Com essa contabilização decerto que o concelho da Nazaré teria um resultado muito melhor. O leitor estará agora a pensar: “mas a Nazaré é um destino de praia no verão”. Para isto a minha resposta vem com números. Alcobaça tem mais praias, no total, e o dobro das praias com bandeira azul. Nazaré tem apenas uma praia com bandeira azul, a da vila, enquanto Alcobaça conta com São Martinho do Porto e Paredes de Vitória como as praias laureadas com esta distinção.

Voltando aos números, o indicador da capacidade e rendimento das unidades hoteleiras é fundamental para perceber o que está mal. Porquê? Uma boa utilização e rentabilização das unidades hoteleiras mostra os turistas que ficam, vêem e por cá deixam parte dos rendimentos.

No fundo, será uma onda mais importante que um património da humanidade? A questão é subjectiva, mas podemos criar condições para ser Alcobaça o centro turístico da zona oeste? Podemos, basta que para isso seja dinamizado o sector. Como? Criando uma imagem de marca para o turismo, vender as atracções turísticas a portugueses e estrangeiros. Um exemplo? A criação de um roteiro turístico de excelência. Num concelho que conta com praia, serra, património e uma gastronomia tão rica é possível criar um plano para que os turistas por cá fiquem dias e não penas horas.

Estas são apenas as questões fáceis de resolver, há de certo problemas de fundo que devem ser resolvidos. Um desses exemplos é o melhoramento de infra-estruturas, como a rede viária que serve o concelho, mas esse tema que deixamos para uma próxima crónica em que este diabo desça à terra.

 

 

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