Os discos pedidos

- Olá boa tarde. Como se chama?

- Boa tarde. Chamo-me Ana!

- Liga-nos de onde?

- De Alcobaça.

- Que idade é que tem?

- 12.

- 12 anos… posso tratar-te por tu.

- Sim.

- Então, para poderes participar tens de dizer a frase de hoje. Sabes? Ou queres ajuda?

- Sei. Não preciso de ajuda.

- Então, é?

- Se um móvel quer comprar, até aos Móveis Alviela tem de viajar.

- Muito bem! Que tema queres pedir hoje, Ana?

- “Everybody”, dos Backstreet Boys.

- Uma banda internacional…! A quem queres dedicar?

- Às meninas da minha turma.

- Muito bem. Vamos então ouvir, já de seguida. Obrigada! Liga sempre que quiseres.

Desliguei logo a chamada. Nem me despedi do locutor e do ”grande auditório da Cister FM”, como se dizia, muitas vezes, na rádio. Desliguei rápido, porque estava ansiosa para ouvir a música que tinha acabado de pedir.

O telefone estava mesmo ao lado do pequeno rádio cinzento, já com a antena suportada por fita cola, em cima de uma das secretárias do escritório dos meus pais. E caso não retirasse o som da emissão, os dois aparelhos fariam interferência. Sabia disso, de tantos programas ouvir naqueles finais de tarde, depois das aulas e das atividades, antes de ir para casa. Ouvia, porque a emissão da Cister FM fazia companhia à minha mãe, durante todo o dia de trabalho.

Assim, primeiro tirei o som e só depois liguei para a Rádio Cister. Ora, quando desliguei a chamada, rodei o botão do volume para o máximo.

Estava mesmo orgulhosa de mim mesma. Há meses que andava a tentar ganhar coragem para fazer aquela chamada. Não queria pedir aos meus pais, com receio que não deixassem. Por outro lado, preocupava-me com o facto de, ao fazer aquela chamada, estando a linha ocupada, impedir o telefonema de algum cliente. Envergonhada, como era, tinha mesmo de ganhar coragem para falar em direto. Mas a curiosidade para o fazer, falou mais alto!

Que feliz que eu também estava! Na verdade, durante aqueles seis minutos de música dei por mim a dançar, entre as cadeiras do gabinete. Que vergonha seria… se tivesse sido apanhada. Mas não fui.

O meu pai não estava no stand. Tinha saído a meio da tarde para ir a casa de dois clientes. A minha mãe deixou-me apenas por uns instantes a “tomar conta da loja”, como dizia sempre, para ir à mercearia da Isabel e do Carlos, na rua do lado, comprar algo que a avó tinha pedido, que não cheguei a saber o que foi. Mas não importa.

Importa sim, é que aqueles instantes, na verdade, quase sete minutos, foram os necessários para digitar o número do passatempo, ser atendida em direto, falar com o locutor e fazer o pedido, desligar, ouvir e “curtir” a música que tinha acabado de dedicar às minhas amigas da escola. Nem dei hipótese para grandes conversas. Respostas curtas e concisas. Só o essencial.

Ainda assim, confesso… não resisti. Não consegui aguentar aquele segredo (mais do que isso: um peso na consciência, como se algo de grave se tratasse) e, à mesa, enquanto jantávamos, contei aos meus pais e à avó, que tinha participado no programa dos “Discos pedidos” da 95.5 fm.

A gargalhada foi imediata. E, quando, mais tarde, a minha mãe ligou, para Lisboa, para falar com cada um dos meus irmãos (como fazia sempre, todos os dias, depois do jantar), contou-lhes a minha aventura.

Já lá vão 21 anos. Parece uma coisa da pré-história. Daqueles tempos em que o telefone, o tal que utilizei para ligar para a Rádio Cister, fazia parte de um grande aparelho de Fax. Uma coisa moderna para aquela altura.

Já lá vão 21 anos desta história, mas há uns dias percebi que o programa ainda existe.

Ainda hoje, quase todos os dias, se pode ligar para a rádio, falar com o locutor, pedir a canção preferida e dedicá-la a quem mais gostamos.

Foi no domingo passado. Tinha saído de Alcobaça há poucos minutos. Estava a chegar à zona da Benedita quando, de repente, o rádio do carro captou a Cister FM. Naquele momento, uma senhora de São Martinho, pediu uma música do Tony Carreira, para dedicar aos familiares que estão na Suíça.

E, até Lisboa, a Rádio Cister acompanhou o meu caminho.

Nota final, um género de mea culpa: confesso que não consigo lembrar-me especificamente da frase do passatempo. A daquele dia. Foi certamente algo muito parecido com a que escrevi no diálogo, com os míticos Móveis Alviela. Muitas vezes os “visados” na publicidade deste passatempo. Quem se lembra?

Até para a semana!

 

 

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