O Reencontro

Todos os sábados. À mesma hora. Dez da noite. No tribunal.

Uns estacionam os carros na rua lateral ao edifício. Outros, do outro lado da estrada, no parque do Estádio Municipal.

A rotina mais não é do que um ponto de encontro. Na verdade, um ponto de reencontro.

Um reencontro semanal entre os que estão a estudar e a trabalhar fora de casa. Fora de Alcobaça. A terra a que fazem questão de voltar sempre que podem.

Melhor: um reencontro destes, com os que cá estão. Sempre. Sempre, à espera de voltar a rever os amigos.

Não, não vão a julgamento. Vão a mais um serão de convívio que tem como ponto de partida aquele espaço. Todos os sábados. À mesma hora. Dez da noite. No tribunal.

Dali, vão a pé até lá abaixo.

“E novidades?”.

“Nunca mais chegava o fim-de-semana, pá!”.

Tudo junto.

“Vamos?”. “Hoje, é para onde?”.

Sem destino.

Primeiro, as escadas do tribunal, depois a praça João de Deus Ramos. A seguir, os dois parques de estacionamento do mercado. Primeiro um. Depois outro.

Qual excursão, qual quê: o trajeto faz-se de cor.

Rua Dr. Brilhante até à ponte. Espreita-se o caudal do rio. Um clássico.

Depois, segue-se em direção ao Centro de Emprego. Ponto de paragem para juntar o grupo que caminha a conta-gotas.

Destino: café do Senhor Luís. Afinal, o mesmo sítio de sempre.

A “Tertúlia” faz-se ali. Durante várias horas.

Entram.

Sala pequena, mas cheia de gente. Atrás do balcão, o Sr. Luís. Cabelo branco e sorriso estampado. Ao lado, a esposa, a D. Maria do Céu.

A opção é a sala do lado, a maior. Juntam-se várias mesas. As mesas de madeira escura, envidraçadas, e as cadeiras da mesma madeira escura. Sempre à nossa espera. Nas paredes, os desenhos e as obras de Virgínia Vitorino. Nas estantes de vidro, com as luzes amarelas, um amarelo antigo, de aconchego, produtos e objetos antigos, os retratos do mosteiro que não está muito longe. Está mesmo ali ao lado.

Somos nós, os amigos de Alcobaça, às vezes, mais de dez, que nos juntamos no café da nossa adolescência e juventude. O café dos namoros, das primeiras paragens após os jantares de aniversário. Dos chás, nos serões frios de inverno. Dos concertos à guitarra da prata da casa, ou seja, dos alcobacenses com talento. Todos os sábados. À mesma hora.

O mesmo café “Tertúlia” que fechou no final de 2016 e que agora, de vez em quando, já abre as portas. Mais um investimento na cultura da cidade. Neste caso, de alguém de cá… mas que está lá, em Lisboa.

Mais uma aposta nesta cidade que é, afinal, berço de uma das mais lindas histórias de amor. Uma história e uma cultura que, aliadas ao que a terra dá e ao tecido empresarial existentes, tem potencial para alavancar (ainda) mais uma cidade que deveria atrair (ainda mais) os jovens que de cá saíram e valorizar, (ainda) mais, os que cá ficaram e os que tiveram a (aventureira, mas boa) ousadia de voltar.

O mesmo café “Tertúlia”, onde nasceu a poetisa desenhada nas paredes, que se pretende que faça também parte da vida dos que agora são adolescentes e jovens de Alcobaça.

Adolescentes e jovens que hoje se reencontram, todas as semanas, à mesma hora, no mesmo sítio de sempre (noutros pontos de encontro, que não só o tribunal), e que se juntam noutro café, noutro espaço, para afinal fazerem a mesma… tertúlia.

Os anos passam, as gerações avançam, mas os reencontros são os mesmos.

Final do serão. Última paragem: a praça do Mosteiro. Inevitável. Vamos juntos para lá, até aos correios, e depois para cá. Até ao tribunal. Todos os sábados. À mesma hora.

 

 

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