O Doce

É quinta-feira. São oito e meia da manhã.

Ainda faltam algumas horas para começar a mostra, mas a azáfama é muita nos vários claustros do mosteiro.

De um lado para o outro, ouvem-se as rodas de carrinhos de metal, a percorrer os corredores de pedra. Transportam caixas brancas, grandes, retangulares, empilhadas umas nas outras, tapadas com papel vegetal. Lá dentro, seguem os tesouros muito esperados.

E o som das rodas faz eco. Eco esse que se junta ao eco das conversas. De um lado para o outro, estão dezenas de pessoas atarefadas. Seguranças, que se distribuem pelas salas, elementos da organização, com a planta da feira na mão a orientar os participantes que preparam os respetivos expositores, técnicos de som e luz, a subir e descer escadotes, a ultimar as ligações. Movimentações que juntas parecem uma máquina a funcionar, sem problemas, sem falhas.

Estamos à porta da sala dos monges a aguardar pela chegada da assessora da câmara municipal. Saímos de Lisboa uma hora e meia antes. Dos três, (eu, o repórter de imagem e o técnico do carro de exteriores) só eu sou de Alcobaça. Coloco-os à vontade, como que a fazer as honras da casa. E aqui, apesar de todas as formalidades, porque estou cá para trabalhar, sinto-me mesmo em casa.

Por isso, de repente, largo a mochila e o tripé e fujo para a porta do lado. Entro na cozinha. Passo pela grande mesa de pedra. Desço as escadinhas e coloco-me por debaixo de uma das chaminés da lareira que está no centro daquele espaço, mítico para mim. Faz parte da tradição. Olho para cima, através de um dos largos e compridos cones. Sorrio. Lá em cima, está um ponto de luz. O mesmo ponto de luz que faço questão de espreitar sempre que aqui venho. De seguida, olho para o lado e vejo as águas do rio Alcoa, que ali passam.

- “Valente!! Onde estás?” – pergunta por mim, o José Carlos Barradas, o meu colega repórter de imagem.

Subo os pequenos degraus e volto à porta. Já não os vejo. O combinado era fazer a reportagem em direto na sala do refeitório com dois expositores: um nacional e um estrangeiro. Às nove e um quarto. Em ponto. Por isso, sigo para lá. Entro, desço a rampa e cumprimento todos, mas, sobretudo, de forma efusiva quem me conhece, desde sempre.

À hora marcada, começa a emissão a partir dali. São quase 5 minutos de conversa, de apresentação de autênticas relíquias conventuais, com imagens em tons de amarelo a fazer lembrar os ovos e o açúcar que os compõem. Ao ouvido, recebo, da régie, nos estúdios em Lisboa, elogios a tanta doçaria e ao meu entusiasmo, que ali não dá mesmo para ser isento.

Estar ali, a concretizar aquela tarefa, enche-me de orgulho. Orgulho pela minha terra e por poder contar uma história que leva Alcobaça para além das fronteiras do concelho.

E graças a quê? A um evento que conta já com vinte edições.

Começou por ser numa tenda, perto da praça municipal que, anos depois, cresceu e que ganhou espaço na praça lateral do mosteiro. Só depois “entrou” para o próprio. Para o Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. Com cada vez mas participantes e visitantes, e a provocar cada vez mais interesse por parte meios de comunicação social de todo o país, o evento ganhou espaço e hoje é obrigatório. Todos os anos. Para promover um dos mais ricos patrimónios culturais da nossa região: os doces, apostando na tradição deixada pela presença dos Monges e Monjas Cistercienses nos Conventos de Alcobaça e Cós.

Fazem parte desta festa dezenas de expositores nacionais e alguns internacionais. O que é conventual ganha ainda mais expressão com participantes de várias ordens religiosas.

Acabamos o direto, as entrevistas, as imagens e regressamos a Lisboa. Pelo caminho escrevo o texto. Já na redação, edito uma daquelas (muitas) peças que me deixam a voar de felicidade. Às duas da tarde, no final do jornal, lá estava, no ar, a história doce que conto aos telespetadores.

No dia seguinte, ao final da tarde, para onde vou? Mais um regresso: a Alcobaça. Não podia faltar. Com a família, volto à cozinha do mosteiro, entre os claustros, para ver a luz, no topo da chaminé, e também, às outras salas, para saborear o melhor que a mostra dos Doces e Licores Conventuais tem para oferecer.

E como nessa vez, em 2010, ontem juntei-me à família que me espera sempre, e aos amigos que neste fim de semana não faltam, conduzidos pela ânsia de um dos fins de semanas mais açucarados da nossa cidade. Acabei a noite a assistir ao último vídeo mapping na fachada do mosteiro. Imperdível.

P´ro ano há mais. Felizmente… em Alcobaça.

 

 

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