As “torres do mosteiro”

Voltar a Alcobaça é um desejo constante. Quem me dera, regressar a casa todos os fins-de-semana. Mas não dá. Há sábados e domingos de trabalho. Há compromissos pessoais, familiares e com amigos a cumprir aos sábados e aos domingos, também em Lisboa.

Quem diz Lisboa, diz Coimbra, diz Porto ou outro local do país e do mundo … devemos ser às centenas, aqueles que estamos “fora” da nossa Terra de Paixão.

A rotina é simples.

Uma agenda grande. Grande, ou seja, larga. Quais telemóveis. Nada como escrever tudo, todos os “afazeres”, em papel. Por vezes, um papel em A4. Um mês impresso em cada folha. Uma planificação. É mais ou menos isso! Porque, há que gerir bem esses “afazeres”, com os “afazeres” do marido.

Mais: assim que está disponível o horário do mês seguinte, coloco nesse papel, os dias de trabalho e os dias de folga. A esse mapa acrescento os planos previstos para esse mês: os tais outros “afazeres”. O objetivo é não perder o controlo da situação.

Por fim: assim que se prevê que há oportunidade de vir a casa. Pumba! Está marcado, está marcado. Não há volta a dar. E felizmente, vir a Alcobaça acontece com muita frequência. Não me posso queixar. Não consigo passar muito tempo sem respirar estes ares.

Funciona quase como que um bálsamo. Um calmante. Um reconforto. Por tudo: pela família e pelos amigos que cá vivem. Pelas lojas que gosto de rever. Pelas ruas onde gosto de estar. Pelo mosteiro que gosto de ver, mesmo que seja apenas numa passagem de carro. Pelas rotinas da minha aldeia, que tento não falhar. Pela serra que vejo a partir da minha casa, nos Moleanos, que me faz acreditar que estou mesmo em casa. Alcobaça, a região, tem este efeito.

E assim é há… não digo. Deixo-vos na dúvida. Não vou dizer há quantos anos! Vá… desde que entrei na faculdade.

Nos primeiros anos (dois, talvez?), sempre que não havia boleia dos manos, o caminho de regresso a casa fazia-se de autocarro. Às sextas-feiras a meio do dia, normalmente. Assim que acabava as aulas… o autocarro passava a ser o meu melhor amigo.

Primeira paragem? Estação de sete-rios. Com a mesma rotina de sempre: comprar o bilhete do número 42, esperar pela chegada do número 42, entrar no número 42 e duas horas depois, lá o número 42, o autocarro, chegava a Alcobaça. Duas horas.

Até chegar a Rio Maior dormia qualquer coisa. A partir daí, a ânsia era tal que não pregava mais olho. Alto da Serra, Benedita, Turquel, Évora de Alcobaça e… Alcobaça!

Sabem do que eu gostava mesmo? Ainda hoje a minha mãe se refere a este meu entusiasmo com muita frequência e, sei bem, com muito orgulho. Do que eu gostava mesmo era passar as “meias dúzias” de curvas antes de chegar à Escola D. Inês e ao fundo ver as torres dos sinos do mosteiro. Que alegria. Nem imaginam. Que sensação de alívio: “cheguei!”.

Depois o resto, já é fácil de imaginar: chegar à garagem dos expressos, ver pela janela a mãe, à porta, à minha espera. Depois, sair do autocarro, apanhar os sacos e correr até ela para lhe dar um grande abraço.

É assim, este coração mole e orgulhoso por ser daqui.

Consciente de que Lisboa (ainda) é uma parte importante, mas consciente de que voltar cá, a Alcobaça, sempre que é possível, é a outra parte importante da minha vida.

 

 

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