Alcobaça é Doce

Coloco a mala no porta bagagens. Despeço-me dos meus pais, com longos beijos e abraços apertados e só depois entro no carro. Para os bancos de trás, onde já estão a Joana e a Filipa. A Rita está sentada à minha frente.

Coloco o cinto e pela janela assisto a um caloroso cumprimento entre a minha mãe e a Dona Ana. Sorrio e suspiro: esperam-me três dias de diversão na praia de São Martinho do Porto. É assim, há vários anos. Em pleno Agosto, dias antes da Feira de São Bernardo.

O caminho de Alcobaça até São Martinho é feito pela estrada nacional e é animado: conversamos, cantamos, combinamos o que vamos jogar na praia e como nos vamos distribuir nas camas do sótão da casa da Rita. Um espaço amplo com pequenas camas, muitos brinquedos, jogos e livros. Esta animação só se interrompe com a paragem do costume: na Casa do Pão-de-Ló de Alfeizerão.

Depois de escolher o pão e outros bolos para os nossos lanches, os dos próximos dias, a Dona Ana pede uma fatia de torta de laranja e um café. À mesa chegam, afinal, mais duas, que acabamos por partilhar. O repasto não demora mais do que quinze minutos. Seguimos depois para o carro... e depressa chegamos ao nosso destino.

A referência a esta rotina que nos marcou a infância durante vários anos tem um propósito: dizer-vos que aquela torta de laranja me sabia bem, sim, é um facto, mas dizer-vos que havia outra relíquia, também douradinha, que me chamava a atenção – o Pão-de-Ló.

Sabem que, no regresso a Alcobaça (depois daqueles dias de brincadeira), eu pedia sempre à Dona Ana para pararmos na mesma pastelaria, para eu levar um Pão-de-Ló para casa? Minutos depois, lá chegava eu ao stand dos meus pais, de caixa na mão, e antes mesmo de cumprimentar a minha mãe, sussurrava-lhe ao ouvido o preço daquela iguaria, para que a despesa fosse (devidamente) paga à mãe da Rita! Haja responsabilidade!

Quem nos conhece sabe que somos uma família de gulosos. É verdade. Mas o mais importante era o sentimento de felicidade e orgulho com aquela minha atitude: o Pão-de-Ló acabava por ser o meu presente das mini-férias. E era apreciado por todos. Ainda hoje, de vez em quando, lá aparece um em casa. Um Pão-de-Ló e cornucópias... ! Estas descobri-as já mais tarde, na adolescência.

Que perdição. Que pequeno prazer. Suspiro só de as imaginar...

Quem como eu, não chegava a Alcobaça, depois de quase duas horas de viagem no expresso e de uma semana de aulas na faculdade, e não ia matar saudades daquela relíquia em forma de cone? Era só perguntarem por mim à minha mãe, à sexta feira à tarde: “A Ana? A Ana foi matar saudades das cornucópias” – respondia ela. Comia uma. Só uma. Mas levava mais para casa. Vá... não era todas as semanas. Mas quase todas.

Ainda hoje me fazem pedidos. Há colegas de trabalho que, quando sabem que vou a Alcobaça, me pedem uma caixinha delas. Nem sempre consigo satisfazer esses desejos, mas tento. Tento, mesmo.

Adoro que Alcobaça esteja nas bocas de todos! E nas bocas do mundo!

Alcobaca é... açúcar... ovos! Alcobaça é doce!

Até breve.

 

 

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