A Carroça

A carroça sobe devagarinho a Travessa da Igreja.

Está frio na aldeia dos Moleanos. Está frio, mas um dia brilhante de céu azul. O orvalho ainda se vê nos campos. O sol do meio dia está forte, mas não o suficiente para secar a humidade que caiu durante a noite.

Os miúdos estão felizes e ansiosos porque a Jarica está quase chegar. Estão bem agasalhados, preparados para o passeio: de casacos vestidos, cachecóis ao pescoço e luvas calçadas. As mais pequeninas estão também de gorro na cabeça.

A carroça velhinha, de madeira escura, ouve-se à distância. Está a ser puxada pela burra e conduzida pelo senhor António.

Depois de feita a subida, e quando se aproximam de nossa casa, a carroça entra pelo portão principal, e vai até ao quintal. Só lá, o “santo homem”, como de forma ternurenta lhe chamam na aldeia, tem espaço suficiente, o espaço possível para fazer a manobra.

A Jarica cumpre as indicações e depois de ser posicionada no local escolhido, o senhor António faz parar a carroça. Desce com cuidado e agarra na burra. Cumprimenta-nos orgulhoso, com um aceno, com a boina. Está feliz. Entusiasmado. E chama os passageiros daquela manhã.

Ajuda-os a subir: primeiro os mais velhos, o Miguel e depois a Ana. De seguida, dá a mão à Catarina e à Margarida. Sentam-se todos na zona de trás da carroça, que costuma levar o feno de outros trabalhos. Hoje está limpa e com umas almofadas. Está confortável.

Os miúdos estão felizes e sorriem para as máquinas fotográficas. Tiram-se várias fotografias.

- Já está? Podemos seguir? – pergunta o senhor António.

- Vamos!! – dizem eles, ao mesmo tempo, ansiosos.

- Vamos, Jarica. Vamos!

A burra cumpre a ordem e segue caminho. Nós acompanhamos a pé, atrás, até ao portão e depois vemo-los descer a rua. A Travessa da Igreja. É um caminho de terra e pedras, misturado com algum alcatrão. Pouco. A zona é de pedreiras e de passagem de ovelhas e cabras. É o campo, que estes pequenos visitam, sempre que podem vir às origens, passar o fim de semana.

Descem até à Estrada Dona Maria Pia que atravessa a aldeia. Na verdade, liga os Moleanos de Aljubarrota até aos Moleanos de Évora. No cruzamento, viram à esquerda e param, logo de seguida, à direita. Há uma última paragem antes do passeio continuar: a Emília está à porta de casa.

É a mais velha do grupo. Apoia-se na roda da carroça e sobe. Junta-se aos primos.

Dali, seguem caminho. E o sorriso do senhor António mantém-se. Lá atrás, eles cantam, acenam a quem passa na estrada, a pé ou de carro, batem palmas. Gritam de alegria. Num percurso feito devagar, devagarinho.

Passam pela igreja, seguem em direção ao furo da aldeia, sobem a estrada até à sede do Clube Cultural Recreativo Moleanense. Sobem ainda mais, até à sede do Rancho. É aí que dão a volta, que fazem a manobra, para descer, para regressar até quase ao ponto de partida.

Fazem-se, de novo, à estrada. Devagar, devagarinho. Mais à frente, param junto ao acesso do campo de futebol, mesmo em frente ao quintal do senhor António. Saltam da carroça e correm até ao parque infantil.

A história tem uns 15 anos. E faz parte das memórias de infância destes pequenos. Pequenos, hoje já crescidos, todos primos. Primos que cresceram juntos. O senhor António era bisavô de uma das meninas. O avô Lourenço.

Com o passar dos anos, o grupo cresceu. Nasceram mais primos. E todos foram continuando a desfrutar da mesma aldeia, dos mesmos pretextos para passear de carroça, para brincar na piscina da casa dos avós de uns, noutros tempos, ou no quintal da casa de outros. Com as galinhas e os coelhos da avó Luísa, outra bisavó que os fez felizes, ou com os cães de outros tios. A apanhar a fruta dos pomares de vizinhos.

É o campo. A minha aldeia. Junto à serra que, estes meus sobrinhos e primos, tantas vezes subiram e que ainda hoje sobem, por exemplo até ao Monumento do Arco da Memória, de onde quase se pode ver, ao fundo, no horizonte, o mar. A costa. Os extremos do concelho. O concelho de Alcobaça.

Alcobaça é serra e mar. Alcobaça é cidade e aldeias. Alcobaça é terra e património. Alcobaça é presente e passado, o passado das memórias. Alcobaça é futuro. Aquele futuro que estivermos todos dispostos a viver. Em Alcobaça. Sempre, de forma permanente, ou de vez em quando, quando a ela podemos voltar. A Alcobaça.

 

 

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